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Por Que o Ensino Jurídico Público é Melhor Que o Privado?

Nota: A todos os leitores, aviso que estou fora de Manaus há uma semana, e estarei longe até o início de Novembro. Por isso, a velocidade de posts diminuiu um pouco, e estou sem responder a muitos comentários relevantes. Estou aqui de longe assistindo com muita satisfação os debates que estão se desenvolvendo no bLex, e muito honrado com alguns novos e ilustres participantes do nosso site. Pretendo começar a responder a muitas contribuições hoje e amanhã, e desde logo peço desculpas a todos pela demora, ao mesmo tempo em que agradeço a todos que contribuíram com seus comentário.

Via de regra, a iniciativa privada se mostra mais apta a lidar com problemas em geral do que o Poder Público. Isso ocorre por vários motivos, dos quais cito apenas alguns: O empresário não se encontra atrelado ao ambiente de desconfiança jurídica que impera sobre o administrador público (sobre esse assunto falarei mais no meu próximo post); a administração da empresa não muda completamente a cada quatro anos; a empresa, por conta de visar lucro, tende a ser mais eficiente na gestão dos recursos e pessoas do que o ente estatal.

Nada obstante, existem algumas áreas onde essa lógica não se provou verdadeira e, a despeito de todas as dificuldades, a excelência ainda reside na gestão estatal. O ensino superior – especialmente o ensino jurídico – é uma dessas áreas. Com todas as dificuldades e todos os problemas que assolam as universidades públicas, não se pode negar que na esmagadora maioria são ambientes muito melhores para aprender o direito do que as universidades particulares. No geral, os egressos de universidades públicas são melhor preparados para a carreira jurídica do que seus pares formados nas faculdades particulares. (É óbvio que esta é uma generalização, e como tal não é verdade absoluta: existem péssimos advogados vindos da UFAM e ótimos profissionais que estudaram na mais mercantil das escolas privadas. Aliás, tive um professor no mestrado que vivia repetindo a expressão: “todas as generalizações estão erradas, inclusive aquela feita nesta frase”)

Interessante perceber que tal fenômeno – que ocorre com frequência no ensino superior – não é verdade para os ensinos médio e fundamental. Nesses casos, a superioridade das escolas privadas é inquestionável (ressalvadas a raras exceções, tais como os Colégios Militares). É curioso ver a consequência dessa distorção: quem tem condições financeiras manda os filhos para boas escolas privadas até o ensino médio. O aluno sai bem preparado, o que facilita que ele passe no vestibular da escola pública, e portanto não precisa pagar pelo ensino superior. Quem não tem condições de mandar o filho para um segundo grau de qualidade tem que se contentar com o ensino público, o que praticamente o condena a disputar vaga numa faculdade privada. Isso porque a competição mais acirrada ocorre em torno das universidades públicas, e as particulares são tidas como opções secundárias.

Para fins de comparação, das 10 melhores escolas de direito nos Estados Unidos, de acordo com a US News and World Report 8 são privadas e apenas 2 são públicas. As cinco melhores (Yale, Harvard, Stanford, Columbia e NYU) são todas privadas. Já no Brasil, de acordo com estatística publicada pelo MEC, apenas uma escola privada está no ranking das 10 melhores (a PUC-RIO) e ainda assim, na 9ª posição.

Qual a razão dessa ineficiência do ensino superior privado, e o que pode ser feito para que isso melhore?

Sem pretender esgotar o assunto, acredito que isso acontece pela confluência de alguns fatores, dentre os quais a qualidade dos alunos (os melhores procuram primeiro as públicas), mas me concentrarei naquele que acredito ser mais relevante: a falta de visão do empresário do ramo da educação. Para que a educação superior particular rendesse frutos acadêmicos, o empresário da educação precisaria estar pronto para investir num retorno que aconteceria apenas a longo e médio prazo. Quando administra a sua instituição com vistas a ganhos imediatos (ou pelo menos a curto prazo) causa a distorção que estamos experimentando.

Explico.

O empresário que procura retorno imediato enxerga o seu negócio como uma linha de produção. A preocupação é com a quantidade de alunos, com a manutenção de uma altíssima razão de alunos por professor, e com o “fechamento” de turmas com alunos suficientes numa sala de aula. O problema dessa lógica é que a faculdade particular funciona como uma fabriqueta de diplomas, que não se preocupa muito com qualidade do aluno formado (que é, afinal de contas, o resultado de seu “processo produtivo”). Se a preocupação maior é com os “estoques” de alunos, o empresário estará mais do que propenso a flexibilizar regras e exigências acadêmicas, especialmente considerando as seguintes peculiaridades:

1. O direito, inexplicavelmente, tem a tradição de quase nunca reprovar o aluno mesmo quando está claramente despreparado e não assimilou a matéria em questão. Aluno que reprova no direito – seja na escola pública, seja na particular – é uma absoluta raridade. Diferente do aluno de medicina ou de engenharia, que tem que passar noites em claro estudando por conta da imensa cobrança acadêmica, o estudante de direito pode muito bem “levar no pagode” e “empurrar com a barriga” seus estudos, dando uma revisada de emergência na véspera das provas e sentando ao lado do CDF da turma durante os exames, que provavelmente sairá ileso ao final de curso, sem reprovar uma só matéria. A piada que repetíamos na época de faculdade era a seguinte: “Na Engenharia é fácil entrar, mas difícil de sair. No Direito, é difícil de entrar mas fácil de sair. Medicina é difícil tanto entrar quanto sair.” (Por respeito a uns amigos meus, não vou citar qual o curso onde é tão fácil entrar quanto sair).

2. O aluno da particular que reprova simplesmente pede transferência para outra particular. Existe uma infeliz mentalidade de alunos de faculdades particulares: está pagando pela educação logo tem o direito de ser aprovado em todas as matérias e receber o diploma ao final do curso, independente de seu desempenho em sala de aula. Quando uma instituição particular não atende a essa expectativa, o cidadão simplesmente transfere para outra instituição mais “liberal” em suas avaliações.

Ora, se o empresário que pensa no curto prazo percebe que apertar e força-los a estudar causará a diminuição dos estoques de pagantes, seria irracional forçar os alunos a estudar e reprovar aqueles que não o fazem.

A lógica seria bem distinta se o empresário pensasse num horizonte mais expandido. Se eu fosse dono (ou “mantenedor”) de uma faculdade particular de direito, e tivesse acesso a seed money suficiente para preparar um empreendimento para o médio e longo prazo, trabalharia com um só objetivo: assegurar a absoluta excelência dos meus egressos.

Se os ex-alunos de determinada instituição são marcados pela sua excepcional capacidade de pensar e praticar o direito, logo logo as forças de mercado passariam a operar. Hoje ela já opera de modo inverso. Dada a péssima qualidade do graduando médio de certas instituições de ensino superior, algumas empresas (incluindo o meu escritório) automaticamente rejeitam currículos submetidos por quem nelas tenha se formado. Se, no entanto, os alunos de certa instituição privada fossem melhor preparados para passar no exame de ordem, mais atraentes para empregadores em potencial, e mais aptos a passar nos concursos públicos, o ingresso nessa instituição passaria a ser disputado entre os vestibulandos. Quando o nível de excelência atingisse um ponto tal, os alunos passariam a disputar primeiro o seu vestibular, depois das escolas públicas, e por último das demais escolas privadas.

Quando isso ocorresse, o empresário poderia estipular uma mensalidade maior em sua instituição, pois muitos estariam dispostos a pagar mais por uma educação premium. Além disso, a concorrência dos alunos bem preparados (que, vale lembrar, têm condições financeiras de pagar pela faculdade, pois normalmente são advindos de escolas privadas de ensino médio) asseguraria preenchimento das turmas inicias, e o prestígio do diploma asseguraria que, mesmo que reprovassem uma ou outra matéria, os alunos sérios persistiriam naquela instituição.

Se é tão simples, por que não vemos as faculdades particulares implementando tal política? Afinal de contas, empresas privadas têm liberdades (por exemplo, na contratação de professores estelares, e demissão de quem não está em harmonia com a sua política acadêmica) que não são compartilhadas pela UFAM ou pela UEA, o que, em tese, as permitiria colocar tal plano em prática com facilidade.

A resposta é bem clara. Uma faculdade que implementasse a política descrita precisaria estar pronta para amargar uns sete a dez anos de prejuízos.

O curso de direito tem cinco anos de duração. As primeiras turmas admitidas nessa teórica faculdade sofreriam êxodo em massa de alunos para quem a cobrança acadêmica seria desmedida, quando comparada a outras escolas particulares. Como a excepcionalidade do ensino ainda não estaria comprovada (dada a falta de alunos formados durante cinco anos), não haveria razão para que ficassem estudando durante os fins de semana, enquanto seus colegas de outras faculdades particulares estariam badalando. A primeira turma de formandos com certeza teria perdido bem mais do que 50% dos alunos que ingressaram por vestibular. Até que a escola se consolidasse como um centro de qualidade, atraindo e retendo alunos interessados em qualidade (o que deve acontecer dois a cinco anos depois de formada a primeira turma) não conseguiria perceber mensalidades suficientes para cobrir seus custos. (Não é a toa que a única universidade particular tida como de alta qualidade é a PUC, que tem o nada desprezível respaldo financeiro da Igreja Católica.)

No entanto, se algum empresário ou grupe empresarial tivesse visão e coragem de investir na formação do conceito – e da marca – da sua instituição durante os primeiros anos, poderia colher os frutos durante décadas ou até séculos. Basta ver o exemplo de Yale (fundada em 1701), Harvard (1636), Stanford (1891), ou até mesmo da PUC-RJ (1941).

Até que isso ocorra, estamos fadados a lidar com o péssimo resultado da atividade empresária que se preocupa mais com a manutenção da quantidade de alunos do que com a qualidade dos seus formandos.

Ainda durante esta semana, pretendo retornar a esse tema e fazer algumas sugestões que poderiam contribuir para a melhora da qualidade do ensino jurídico


28 comments to Por Que o Ensino Jurídico Público é Melhor Que o Privado?

  • Caroline

    Eu estava sentindo falta de posts novos.

    Sou estudante de Direito de uma Faculdade particular. No começo a minha turma era grande e foi diminuindo, alguns sairam, outros pediram transferência e hoje percebo quem quer mesmo fazer direito e alguns que leva este curso no “pagode”. No que diz respeito a qualidade de ensino eu não tenho do que reclamar (até agora). O que eu espero é qualidade de ensino.

  • Igor Campos

    Jacob
    Concordo em alguns aspectos em seu texto, porém é relativo à afirmação ensino jurídico público e melhor que o privado, é claro que os números não mentem aprovações em OAB ou até mesmo em concursos públicos em destaque estão às faculdades públicas e o amadurecimento, comprometimento dos alunos com relação ao preparo é diferenciado, ouso afirmar que aparentemente em sua grande maioria os alunos das escolas públicas são mais aplicados, por outro lado, tenho quase certeza que o ensino, aprendizagem oferecidas pelas as escolas particulares são melhores, agora como o nobre colega afirmou longe estão de serem rigorosos, ocorre também alunos descontentes com a rede pública Federal principalmente no AM procurarem escolas particulares deixando essa afirmativa um pouco equivocada. Sem prolongar acredito que o melhor ensino esta na rede privada (TEMOS A TOTALIDADE DOS PROFESSORES ALTAMENTE CAPACITADOS E COMPROMETIDOS C/ A INSTITUIÇÃO), aparentemente os melhores alunos estão na rede pública. E aquele velho ditado melhor professor que o livro não tem, por isso que estes se destacam. Agora estou falando no Amazonas, possuímos exemplos de escolas privadas com ensino jurídico de ponta, s/ propaganda mais olha o quadro de professores do FMF (falta ser rigoroso, + o mercado filtra). Outro exemplo de sucesso de ensino superior privado este, porém não contempla áreas jurídicas é a fucapi. (altamente rigorosa)

  • Marcelo Augusto

    O panorama está mudando (aos poucos, mas está). Tenho muitos ex-alunos formados em faculdades privadas que hoje são magistrados, procuradores municipais e estaduais, membros do MPE e MPF e defensores públicos.

  • O ACREANO

    REALMENTE HOUVE UMA INVERSÃO DE VALORES. QUEM PODE FAZER O ENSINO MÉDIO EM ESCOLAS PARTICULARES PAGA POR ESSE BENEFÍCIO, JÁ PENSANDO NAS FACULDADES ESTATAIS. E QUEM FAZ O MÉDIO NAS ESCOLAS PÚBLICAS A ÚNICA OPÇÃO SÃO AS FACULDADES PRIVADAS. LEMBRO-ME DE UMA FRASE QUE DIZÍAMOS: “ADVOGADO DA [nome da faculdade particular editado pelo moderador].”
    É LÓGICO QUE CADA CABEÇA EXISTE UMA SENTENÇA. QUEM QUER SER UM PROFISSIONAL QUALIFICADO, VAI VALORIZAR O SEU SUOR.

  • Marco Aurelio Choy

    Caro amigo Daniel, saudades de vc… Volte em breve.

    Bem, sou Professor concursado de uma instituiçao publica e tambem sou professor de algumas instituiçoes privadas, na minha breve experiencia posso te afirmar: gente boa e ruim tem em tudo que e lugar, logico que um processo seletivo mais rigido facilita. A diferença esta no aluno, na sua perseverança no esforço pessoal.

  • Douglas

    Na minha opinião, tudo só depende do aluno, na particular o professor não pode faltar, o aluno pode aproveitar o máximo do professor, pois o mesmo tem que cumprir a grade, na pública sempre ouvi falar que nem aula tem. Se o aluno imprimir um nível e grau de estudo elevado, será tão bom ou melhor que qualquer um, mas creio tanmbém que o aluno da pública, é doutrinado, incentivado, fomentado a ter uma vida de estudos constantes, isso sim faz ele diferente.

  • Daniel,

    Concordo com muito dos seus pontos. Divirjo em alguns. Acho que a divisão deveria ser entre faculdades com fins lucrativos e as sem fins lucrativos. Sendo assim, notaríamos que o abismo entre uma e outra seria ainda maior, simplesmente as 10 primeiras aqui (Brasil) e lá (EUA) são entidades sem fins lucrativos. No campo do direito as 3 melhores de são paulo USP, PUC e Mack são sem fins lucrativos.

    Entre as sem fim lucrativos acho que é possível dizer que as privadas, conseguem se sair melhor que as publicas, se tomarmos o exemplo da fundação getúlio vargas e dos EUA, mas no brasil as faculdades de medicina quebram esta regra, as pública sempre se saem melhor que as privadas.

    Ensino de qualidade é muito caro, e somente mensalidade não custeia educação de qualidade, serão necessárias outras fontes de recursos, é onde entra o estado no caso brasileiro, as doações nos EUA. Educação de qualidade envolve pesquisa pura e independência, é muito difícil conciliar isto com o retorno ao capital investido. A boa universidade deve ir além de formar bons profissionais para o mercado, ela tem que ser um centro de excelência, gerar conhecimento e garantir a pluralidade da sociedade em que esta instalada. Não acredito ser possível conciliar isto com lucro.

    Concluo dizendo que o que o Brasil precisa é de uma sociedade civil organizada capaz de cobrar as univeridades publicas para cumprirem com seus objetivos, e capaz de construir universidades privadas sem fins lucrativos. Se fizemos a FGV no passado, podemos fazer outros no presente. Ainda na defesa das entidade privadas sem fins lucrativos lembro que os dois melhores hospitais do País (Albert Einstein e Sirio Libanes) são organizadas desta forma.

    Sobre as universidades privadas com fins lucrativos prefiro não me manifestar neste momento.

    É assunto para muito conversa.

    Abraço.

  • Ney Bastos

    Meu caro,

    Discordo de vc. De fato os alunos da universidade pública em regra são melhores peparados, por conta do filtro realizado pelo vestibular e, principalmente, mais interessados, mas isso não significa que a universidade seja melhor. Minha experiëncia de egresso da pública e professor de particular mostra que essa é imensamente melhor que aquela.

    A falta de compromisso dos professores com a universidade pública é absurdo, sem contar que o professor lá dá aula de a a z.Minhas lembraças da faculdade são péssimas.

    Ney Bastos

  • Fábio Lindoso e Lima

    Caro Daniel,

    Exatamente por todos os defeitos que o ensino público possui, o egresso da instituição pública é mais “calejado”. O acadêmico da instituição pública tem que se virar nos 30 para aprender – se tiver interesse – e ser autodidata não é uma situação rara.

    Noutro giro, há de se ressaltar que a combinação de uma instituição privada com o critério qualitativo com um aluno interessado é explosiva.

  • Norma Justa

    Dr. Daniel

    O assunto é interessante e polêmico. Quero crer, no entanto, que algumas de suas considerações e as conclusões que delas defluiram estão construídas equivocadamente. Considere os seguintes fatos:

    1. As instituições educacionais de nível superior privadas americanas e brasileiras não são comparáveis entre si. As instituições públicas americanas são mantidas basicamente pelos contribuintes dos estados onde estão situadas enquanto as privadas obtêm seus recursos de outras fontes. No entanto, as prestigiosas instituições universitárias privadas americanas não são EMPRESAS EDUCACIONAIS. São ditas privadas pelo fato de não serem mantidas pelo contribuinte diretamente, mas não têm fim lucrativo.

    2.É bom lembrar também que nos Estados Unidos tanto as instituições públicas quanto as privadas cobram de seus alunos, e a conta pode até ser mais salgada em uma boa universidade pública. Apenas a título de exemplo menciono que o custo anual de um aluno de direito na Universidade da Califórnia em Berkeley (pública), apenas com o pagamento feito diretamente à universidade (tuition & fees) é de aproximadamente US$ 36.000,00 para um residente da Califórnia e um pouco mais de US$ 48.000,00 para um não-residente enquanto que em Harvard, que é privada, esse valor é de US$ 42.000,00

    3. Instituições privadas do primeiro time, como Harvard e Yale, conseguem assegurar aos seus alunos financiamentos, tanto restituíveis quanto a fundo perdido, em níveis muito superiores ao das instituições públicas. Isso ocorre, em boa parte, aos fundos permanentes (endowment funds) que se acumularam ao longo dos anos, oriundos de várias fontes, particularmente de ex-alunos bem sucedidos.

    4. Há no Brasil exemplos de instituições privadas com registro de efetivo sucesso. São exceções mas existem. Merecem menção a Fundação Getúlio Vargas e as PUC, em diversos estados. Todas elas sem fins lucrativos. Aliás, importa mencionar que se as PUC dependessem de recursos da Igreja Católica já teriam fechado suas portas há muito tempo.

    É impossível, portanto, concluir que a diferença decorre do fato de ser pública ou privada, lá ou aqui. De ser paga ou gratuita. Onde estará a real razão? Seriam incompatíveis o lucro e a educação superior de boa qualidade? Tema para boa discussão.

    p.s.1 – A tentativa do Dr. Ney Bastos de parecer agradável para a sua faculdade particular mais parece um tiro que saiu pela culatra. A afirmação de que os alunos das escolas públicas são “melhores (sic!!) preparados” por conta do filtro do vestibular traz embutida, em seu bojo, três observações interessantes. A primeira, de que o que se aprende durante os cinco anos do curso de direito é irrelevante, bastando o ensino médio para promover a diferenciação pelo resto da vida. A segunda, de que o filtro do vestibular das particulares tem uma generosidade toda própria. A terceira, a paradoxal conclusão de que a universidade privada é melhor mas, por conta de serem os alunos da universidade pública “mais interessados”, aquela não consegue formar tão bons profissionais quanto esta.

  • Leonardo Barreto

    Destarte, é digno de encômios as observações feita por todos os participantes que postaram seus respectivos comentários.
    Tenho o inenarrável prazer de ser e ter sido aluno de alguns mestres que aí explanaram um pouco de seus vastos conhecimentos.
    Quando me perguntam em qual faculdade estudo, respondo sem titubear que sou integrante do ensino superior privado, sei que ainda há notória discriminação entre acadêmicos de escola pública e particular perante as vistas da sociedade, porém, o interesse em cair vertiginosamente em cima do aprendizado no universo jurídico, e com isso ser ávido pelo conhecimento passado na faculdade e por tantos outros doutrinadores, independe do estereótipo criado por alguns militantes da área. Creio que em algumas ideias publicadas no bojo desta discussão, não tenha sido de grande felicidade do publicador, mas tenho a plena convicção de que o sucesso profissional e o reconhecimento merecido, virá apenas com muito trabalho, estudo e dedicação.

  • Leonardo Barreto

    correção: observações FEITAS*, ok?

  • Daniel Fábio Jacob Nogueira

    A todos que comentaram:
    Retornei hoje mas há alguns dias (desde o comentário do Chancellor) que estou refletindo sobre o assunto. Hoje ainda não acho que terminei de colocar as ideias em ordem para responder. Não estou ignorando os comentários, apenas intrigado e quero responder apenas quando tiver certeza do que vou escrever. Portanto, peço um pouco de paciência, mas amanhã, ou no máximo depois, volto aqui para responder a cada um de vocês. De qualquer modo, obrigado pelos insights importantes.

  • Jeremias Benedito

    Fantástica a contribuição do Leonardo Barreto. Ela sintetiza, de maneira magistral, os vícios mais comuns que um estudante de direito deve evitar, seja ele de escola pública ou privada, ao produzir um texto. A lista de atributos negativos presentes no texto é longa mas, para poupar os leitores, passo a nominar os mais evidentes: falta de trato com as regras gramaticais básicas (… “é digno de encômios as observações”… Não há concordância nem de sujeito com o verbo, nem de gênero entre substantivo e adjetivo); falta de coerência no texto; uso inadequado de palavras com as quais o autor não tem familiaridade (“Destarte” ficou ótimo!) e não menos relevante, boçalidade e empáfia sem par.

    É inútil o esforço de esconder atrás de palavras ocas o vazio de ideias.

  • Leonardo Barreto

    Resolvi participar deste blog com o intuito de demonstrar os anseios de um acadêmico referente ao assunto que estava sendo discutido. Minha humilde opinião é corolário da vontade de me locupletar do valoroso saber jurídico explanados pelos outros participantes,porém, não vejo a argúcia transparecida pelo post a cima criado, fica a ideia de que não fui conciso em meu raciocínio e que não tive sucesso em minhas colocações, mas fico grato pelas observações pertinentes quanto a gramática, afinal de contas sou estudante e AINDA posso errar.
    E em resposta ao senhor Jeremias Benedito quanto a ultima colocação:

    “É inútil o esforço de esconder atrás de palavras ocas o vazio de ideias.”

    Peço que repense o que é vazio de ideias, pois tenho a plena certeza de que minha mensagem foi entendida claramente.

    ps. Qualquer dúvida quanto as palavras utilizadas, procure no http://www.dicionarioaurelio.com.br

    Desde já, obrigado.

  • Daniel Fábio Jacob Nogueira

    Caro Leonardo,

    Nosso amigo Jeremias realmente pegou um pouco pesado na tinta. O que talvez ele quis dizer é que, nos dias atuais, o uso de linguagem excessivamente rebuscada já não é mais uma característica do direito moderno. Nem tampouco foi justo dizer que teu comentário representou um vazio de ideias. Como acadêmico, terás bastante tempo para te acostumares a expressar as opiniões de modo mais claro e direto. De qualquer modo, peço que essas críticas não te impeçam de continuar comentando e contribuíndo conosco aqui no bLex. Nós valorizamos todas as participações: os comentários feitos por leigos no Direito são tão bemvindos quanto aquelas muito bem construídas participações de grandes nomes do mundo jurídico.

  • Fábio Lindoso e Lima

    Caro Daniel,

    Volto a me pronunciar neste post para trazer uma contribuição que pode exemplificar bem os comentários feitos no sentido de que a qualidade do ensino privado está melhorando (e, de fato, acho que está).

    Na última semana, foi realizado o concurso de júri simulado do Ministério Público. Nesta competição, cada faculdade de direito é representada por uma equipe (saliente-se que cada instituição faz o processo de seleção por sua conta e risco) e as equipes simulam um julgamento, alternando entre o papel do Parquet e dos advogados de defesa.

    A Universidade Federal do Amazonas possui – apesar do pouco (para não dizer inexistente) apoio da instituição – 5 títulos, sendo 4 destes nas últimas competições.

    Quem, como eu, acompanhou as últimas competições provavelmente percebeu que a discrepância, tanto em matéria de conhecimento quanto em técnica de oratória e convencimento, que havia entre a UFAM e as outras instituições veio diminuindo a cada ano.

    O júri simulado deste ano mostrou isto de maneira muito clara.

    A UFAM foi vencedora em uma final disputadíssima com uma instituição de ensino privado, cujo nome não me recordo. A vitória veio, mas veio apertada: o placar foi de 4×3.

    Embora tenha a convicção de que um placar de júri não, necessariamente, reflete a competência dos participantes, é um indicativo bastante convincente de que foi páreo duro e é, também, um indicativo de que o prognóstico quanto às instituições de ensino privado é positivo.

    Forte abraço!

  • José Augusto

    Dr. Daniel
    Só para ajudar… expressar é com “X” e não com “S” (espressar, sic).

  • Daniel Fábio Jacob Nogueira

    José,

    Tens razão. Foi um mero golpe do teclado, mas obrigado por identificá-lo. Já corrigi no comentário original

  • Leonardo Barreto

    Caro Daniel,

    Fico agradecido pelo posicionamento tomado. Acredito que a proposta precípua do blex é dinamizar e levantar questões interessantes sobre as atualidades de nosso ordenamento, e não ser um mero identificador de erros alheios.
    De fato ainda terei bastante tempo para aprimorar o poder da fácil, direta e objetiva comunicação.

    mais uma vez, obrigado.

  • Marcos dos Santos Carmo Filho

    Se o ensino é a combinação de corpo docente, estrutura e corpo discente, a minha pouca experiência indica que, em média, os dois primeiros fatores são muito melhores no ensino particular, enquanto o terceiro é melhor nas faculdades públicas (até porque as vagas são restritas).

    O corpo docente das faculdades públicas é uma mistura de alguns profissionais fantásticos, completamente dedicados ao magistério, com uma grande quantidade de dinossauros medíocres, acomodados em suas cadeiras. A estabilidade de que gozam costuma levar boa parte desses profissionais a adotar o método de ensino “o material para a prova está na xerox”, também conhecido como “te vira”.

    A estrutura varia, mas, via de regra, não se pode esperar ter acesso a livros com menos do que cinco anos, e acredito que esteja sendo otimista. É claro que, para matérias às quais o estudo de material mais antigo é essencial – como a Filosofia, a Sociologia etc. -, esse material é muito bem-vindo. Mas, para o Direito, que exige do profissional atualização constante, a falta de renovação do material físico e as limitações de acesso a material virtual causam dificuldades.

    Nas particulares, por outro lado, o aluno sente a dor de financiar o próprio ensino no órgão mais sensível (o bolso), portanto *percebe* o poder de exigir retorno na forma de material atualizado, acesso à internet e professores assíduos, atualizados e dispostos a prestar o serviço contratado. Os profissionais acomodados podem até sobreviver bastante tempo nas instituições, mas não têm a segurança de que continuarão lecionando não importa o que façam.

    Entretanto, como a política de acesso às faculdades particulares é basicamente “pode pagar, pode estudar”, realmente se acaba com um corpo discente aprovado sem critério. Tanto os alunos dedicados quanto os desinteressados têm a mesma oportunidade. A qualidade dos alunos é uma caixinha de surpresas.

    Também é comum que os alunos se achem no direito de ganhar a aprovação porque têm filhos, doenças, trabalho, parentes com problemas ou outras circunstâncias. O que é uma evidente distorção de valores.

    A faculdade não existe para entregar diplomas. Existe para formar profissionais. O fato de ter família e precisar enfrentar imensas dificuldades para pagar a faculdade não diminui o mínimo que um profissional precisa saber para ser considerado apto a exercer a profissão. O aluno é consumidor do serviço educacional, não do diploma.

    Isso não é percebido com a mesma frequência nas faculdades públicas porque seus alunos costumam ser mais jovens – com menor probabilidade de já terem constituído família e maior disposição para o trabalho, quando não recebem auxílio de seus familiares.

    Encerrando o comentário… o potencial do ensino particular é muito maior que o do público, ainda mais quando são levados em consideração os financiamentos e bolsas educacionais, que permitem o acesso de alunos mais humildes, porém mais dedicados. O único defeito real das faculdades particulares – *atualmente* intrínseco a elas – é a indisposição para cobrar desempenho satisfatório dos alunos.

    Marcos.

  • Isabella Jacob Nogueira

    Caro Daniel,

    Quanto ao comentário do meu querido colega Fábio, concordo com a afirmação de que as faculdades particulares têm, sim, melhorado gradativamente nos últimos anos e tenho algo a acrescentar: como estudante da UEA, confesso a minha surpresa com a classificação final do júri simulado do MP. Em primeiro lugar, a centenária UFAM, como já virou costume. Em segundo lugar, a Uninorte, uma instituição particular. Em terceiro lugar a UEA.
    No tramite da competição, os representantes da instituição à qual pertenço enfrentaram várias faculdades particulares, obtendo resultados apertadíssimos e até mesmo perdendo para duas delas (surpreendentemente, as duas mais negativamente conceituadas na área).
    Mesmo obtendo primeiro e segundo lugar na classificação individual, houve por parte da maioria de meus colegas da UEA uma certa decepção com o resultado, motivado pelo grande preconceito destinado aos acadêmicos de faculdades particulares. Não estavam decepcionados de ter obtido o terceiro lugar, mas, sim, de ter “perdido” para estas instituições tão mal vistas.
    Isto prova não somente que o nível do ensino particular está melhorando mas também que, independente da instituição da qual é egresso, a capacidade intelectual e qualidade profissional de um operador do Direito dependem principalmente de seus esforços.

  • [...] Por Ney Bastos O post do Daniel a respeito do paralelo entre o ensino público e o privado (com o qual eu discordei parcialmente em comentário que fiz) me fez lembrar de algo que é reflexo [...]

  • [...] Fábio Jacob Nogueira Ultimamente o bLex tem debatido questões relacionadas ao ensino jurídico. No meu último post sobre o assunto, disse que iria “retornar a esse tema e fazer algumas sugestões que poderiam contribuir para [...]

  • Caroline Diniz

    Prezada Isabella, não entendi o “surpreendentemente” usado em sua narrativa, pois nas duas universidades penalizadas pelo MEC, existem excelentes e brilhantes alunos como na conceituada Federal, como exemplo cito o brilhante acadêmico da UNIP, que sem dúvida representou muito bem a Instituição, como prova tivemos as vitórias nas rodadas contra a Universidade Estadual, que por motivos claros, não pode ser deixada de fora da vitória. Nem é preciso citar os “motivos claros”, afinal, seria péssimo para a UEA perder para uma Universidade com o conceito negativo pelo MEC não é mesmo?
    Sou totalmente favorável que as universidades sejam responsabilizadas pelos danos aos acadêmicos, mas sou totalmente contra o pensamento de que em tais faculdades existam somente alunos despreparados, se assim fosse, não existiriam ex alunos procuradores, juízes, advogados..e etc!

  • Alunos indignados!

    UEA voltou na “repescagem”.
    UEA não poderia perder para a UNIP.
    O preconceito que existe por parte dos advogados contra alunos da UNIP que são agora taxados de “fracos” é algo desprezível, os jurados deram nota máxima a UNIP, tivemos o acesso as notas de todos, e no final, numa repescagem, colocam a UNIP em 4º lugar e a brilhante UEA em 3º?

    Pior:

    Generalizar? Recusar liminarmente um currículo? Infelizmente é o preço que os alunos da UNIP, mesmo os brilhantes irão pagar.

    Queres escolher um bom estagiário? Faça uma seleção!

    Uma série de alunos com alto preparo, estudam em universivades privadas por não aceitar as ditaduras das públicas.Sem falar do péssimo atendimento daquelas pessoas que lá trabalham.

    Um advogado deve ser livre de preconceitos!

    Aos colegas da UNIP e Nilton Lins, desejo-lhes sorte!

  • Minha contribuição é a visão de um Educador e aplicável não apenas ao caso do Direito.

    De fato a generalização em alguns casos não reflete a realidade, mas regra é regra, excessão é excessão… .

    O fato de determinados cursos serem mais efetivos nas IES-públicas, tem raizes em toda uma conjuntura e condições sócio-históricas dos seus ingressantes e egressos, o que se reflete tanto nas condições oferecidas pela IES quanto no desempenho acadêmico dos estudantes e obviamente na vida profissional.

    O perfil sócio-histórico dos estudantes de IES públicas é na regra diferente do das privadas, ou seja, as IES-públicas recebem os estudantes mais preparados, que tem melhores condições de continuar estudando, que ao se formar tem mais e melhores oportunidades na carreira e que por conseguinte acabam retornando à vida acadêmica como professores nas próprias IES-públicas, gerando um círculo vicioso… .

    É bem verdade que no atual paradigma educacional o centro do processo ensino-aprendizagem é o próprio estudante, não o professor ou a instituição…, mas é claro que as condições prévias ao acesso universitário, as condições vigentes durante tal período e as encontradas após a graduação, fazem toda a diferença.

    No caso específico do Direito e de outros “Cursos filé” (que dão alta mobilidade social) há uma “tendência sócio-histórica-familiar” que é “regra” (apesar das honrosas exceções); quem está nesses cursos nas IES-privadas em geral são pessoas que não tem a tal “tendência sócio-histórica-familiar”, as escolas por sua vez também não tem “tradição” já que só foi possível a criação das mesmas a partir de um “recente” aumento da mobilidade social nas classes que tradicionalmente não tinham condições de acessar o Ensino Superior.

    Apenas para registrar, no Brasil apenas 20% do Ensino superior se dá em Instituições públicas…, os 80% restantes é privado, justamente aonde está a maioria dessa “massa emergente” em busca de qualificação.

  • Isabella Jacob Nogueira

    Caroline,

    Lendo atentamente meu comentário notará que em nenhum momento utilizei a palavra “surpreendentemente”, falei apenas que fiquei surpresa com o resultado, pois são duas instituições muito mal vistas por razões concretas, tanto que estão sendo penalizadas pelo MEC.
    Continuando a leitura com atenção, perceberá também que compartilho de seu pensamento que existem, sim, alunos competentíssimos nas universidades particulares e que esta competição foi uma prova disto.
    Existem ótimos alunos nestas instituições, o grande problema é que não têm capacidade de admitir a péssima qualidade da faculdade à qual pertencem. Se o fizessem, poderiam pensar em migrar para instituições particulares melhores (existem várias muito boas na cidade e com bons conceitos no MEC, é só procurar!) e talvez tivessem um futuro mais promissor na carreira.

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