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Em Nome do Pai

De acordo com as regras do bLex, cada autor pode publicar 20% de seus posts sobre temas livres. Isto quer dizer que para cada 4 posts profissionais, posso fazer um post sobre qualquer coisa que me der na telha. Tendo publicado 6 contribuições neste blog, eu estava tentando decidir como usar minha quota da “Regra dos 20%” quando hoje, ao realizar a minha diária leitura dos jornais da cidade, me deparo com a seguinte nota na Coluna Sim & Não do A Crítica:

Multa O ex-titular da Seduc Vicente Nogueira foi condenado ontem pelo TCE a pagar multa de R$ 197,3 mil por irregularidades em sua prestação de contas de 2001. De  200 contratos analisados pela Corte, 74 apresentavam problemas, segundo o TCE.  Procurado, Nogueira respondeu que vai aguardar notificação do Tribunal de Contas do Estado.

Imediatamente soube qual seria meu tema livre. Para quem não sabe, Vicente Nogueira é meu pai. Fiz questão de nem mesmo ligar para falar com ele antes de publicar este post e não tenho procuração para defendê-lo neste assunto. Sequer sei qual o motivo específico para a aplicação da multa, mas aposto meu ante-braço direito que é alguma questão formal.

A teoria da argumentação ensina que o ouvinte diminui a importância de defesa que é feita a partir de alguém com um ponto de vista comprometido. Não há como negar minha parcialidade nesta questão. Mesmo assim, me vejo obrigado a expressar o que penso sobre o assunto.

Quem conhece e trabalha com o Dr. Vicente Nogueira (é doutor mesmo pois ele tem doutorado) sabe que ele é uma pessoa absolutamente honrada e ética. Meu pai é o mais velho de 15 filhos tidos entre um alfaiate e uma dona de casa no bairro da Aparecida. Sua infância não foi confortável como aquela que ele pôde nos proporcionar. Numa prole de 18 filhos (3 dos quais adotados) , vivendo com poucas posses, havia uma real probabilidade estatística de que algum deles descambasse para uma vida de crime, de vagabundagem, de prostituição. Mas Seu Brígido e Dona Glória, meus avós, cuidaram de incutir em todos os seus filhos um elevado código de conduta moral. Acreditavam também no peso da educação. Apesar de meus avós terem concluído apenas a oitava e a quarta série do ensino fundamental, 16 de seus 18 filhos terminaram a faculdade, e muitos têm títulos acadêmicos avançados de mestrado e doutorado.

O resultado do trabalho de Seu Brígido e Dona Glória é visível: criaram um clã de pessoas dedicadas e decentes. Não é à toa que os filhos de um alfaiate e uma dona de casa se estabeleceram profissionalmente em diversas áreas. Dentre os filhos de Brígido e Glória você encontra presidentes de multinacionais, servidores públicos em altos cargos de carreira, odontólogos, promotores de justiça, assistentes sociais, professores, empresários, todos respeitados em suas respectivas áreas. Hoje, com o falecimento de Seu Brígido, é a Dona Glória quem assume e exerce a posição de matriarca dos Nogueira.

O código moral de Dona Glória pode ser ilustrado com um exemplo recente. Meu pai compareceu a dois eventos consecutivos, acompanhado de minha avó. No primeiro, um juiz de direito estava fazendo um discurso e apontou que meu pai era um homem conhecido por sua honradez e que sobre sua reputação como homem público não recaia uma só mácula. No segundo evento, um político teceu rasgados elogios à “incomparável inteligência e genialidade” de Vicente Nogueira.

Após ambos os eventos, minha avó chamou meu pai e disse: “Fico feliz pelos elogios que você recebeu do político, mas inteligência é um apenas um dom; fico verdadeiramente orgulhosa é com elogios do juiz, pois honestidade é um aspecto do caráter que você exerce por opção.

Posso dizer com a segurança de alguém que o conhece intimamente: meu pai nunca tocou em um centavo de dinheiro público que não estivesse em seu contra-cheque. Esses, os saqueadores dos cofres públicos, parecem estar a salvo de penalizações do Tribunal de Contas. Enfiam as mãos em milhões de reais e ficam ilesos. Agora, se um homem de bem comete alguma irregularidade formal, sofre multa de duzentos mil reais!

Para alguém que vive de seu salário, isto é muito dinheiro. Quem se locupletou do erário de forma escusa já é punido com raridade pelo TCE, mas, se for punido, usa os rendimentos do dinheiro que furtou para pagar a condenação. Entretanto, quem trabalhou de forma honesta e dedicou seu tempo a melhorar o serviço público vai tirar de onde 200 mil reais de multa? Vendendo algum patrimônio construído após décadas de poupança e sacrifício?

É por isto que homens de bem cada vez mais se afastam do serviço público. Se não contam com a rede de proteção própria da politicagem, se sujeitam a passar anos com dor de cabeça no Tribunal de Contas, além de colocarem em risco seu patrimônio conquistado no suor, por conta de algum problema formal que, em função da arcana e confusa legislação administrativa brasileira, não foi detectado a tempo. O que este tipo de situação faz é convidar saqueadores a assumirem cargos de direção, pois provisionam, no seu próprio caixa desviado, uma parcela para resolver eventuais problemas de contas.

Caso mantida esta decisão, o patrimônio material de meu pai pode até ficar desfalcado. Mas a sua honra, jamais.


8 comments to Em Nome do Pai

  • Márcio Cavalcante

    Não gostaria que esse comentário fosse visto como uma defesa, até porque o Prof. Vicente nem sabe quem sou, mas eu conheço a sua história e atuação profissional e posso assegurar que se trata de um técnico muito competente e, principalmente, extremamente honesto.

  • Servidor da Semed

    Quero dizer que o Nogueira é conhecido como prepotente, mandão e muitas vezes grosso com as pessoas. Mas também é competente e sério. Todos que trabalham com ele conhecem que é muito honesto e trabalhador como disse o artigo. Por isso também acho injustica uma multa dessas.

  • Pedrosa

    Justiça precisa ser feita, o professor Vicente foi o melhor secretário que a Seduc já teve, e o único direito. Espero que seus advogados revertam o processo.

  • Servidora da Semed

    Estamos esperando o prof. Vicente anunciar na SEMED programas semelhantes ao que ele lançou quando estava na SEDUC e o fizeram respeitado pelos professores. Parece que ele se dedicou, até agora, a abolir os privilégios e as mordomias que eram muitas. Isso é necessário e deixa com a alma lavada os pofessores que sempre trabalharam duro e não tinham as benesses que eram dispensadas aos amiguinhos e cabos eleitorais, há muito tempo. Mas também isso não é suficiente. Já está na hora de implantar mudanças pedagógicas e deixar o dia-a-dia da administração para quem não sabe fazer outra coisa.

  • Ricardo

    Somente para registrar, o prof Vicente, fez o mestrado na melhor universidade do mundo, MIT (Massachusetts Institute of Technology) e foi professor visitante da 11a University of Texas Austin, para conferir vai aí o site:
    http://www.webometrics.info/Webometrics%20library/Top%20500%20Webometrics%20Ranking%20of%20World%20Universities%20July%202009.xls

  • Rodrigo Dias

    Estive a lado do Daniel em muitas situações e ouvi recebendo inúmeros pedidos em troca de vultuosos “agrados”. A resposta sempre foi no sentido de negar a oferta descabida. Recusando-se com veemência e, sem ser deselegante, as propostas indecorasas que recebia. Se o Daniel assim é, não é por outro motivo, qual seja: educação. Seja de pai e mãe, seja escolar. Afinal uma complementa a outra. Se o ditado estiver certo (filho de peixe, peixinho é!), não vejo dúvidas para crer que o fato ocorrido com o Dr. Vicente é mera irregularidade formal.
    Sucesso e parabéns pelo post Daniel.

  • Daniel Fábio Jacob Nogueira

    A todos que comentaram, quero agradecer de coração. Tinha promtido para mim mesmo que publicaria todas as respostas, e se fosse necessário, retrucaria nos comentários. Isso não foi necessário. Todas as respostas recebidas apoiaram o tema central do post. Como filho, fico feliz de ver que, apesar de opiniões contrárias quanto a outros aspectos, não há questionamento quanto à honradez de meu velho pai. As falhas constatadas pelo TCE realmente eram meramente formais. Como estou assumindo a defesa dele perante todos os feitos no TCE, essa matéria passa a ser caso sob meu patrocínio, e portanto não mais me pronunciarei sobre o assunto (por enquanto). Mais uma vez, aos comentaristas, meu muito obrigado.

  • Evelise Cristina Bergamo

    Dr. Daniel, não conheço seu pai, mas o conheço você, e por te conhecer, termos trabalhado juntos, e por tantas vezes nos sentarmos para resolver os problemas profissionais em comum que tínhamos, semrpe procurando o caminho e saida mais justa e legal, tenho absoluta certeza de que és este homem que conheço pelos alicerces familiares que recebestes, conheço tua integridade, tua ética e conduta integra por todas as tratativas que adotamos. Estou soidária contigo, não espero tua resposta, não é minha intenção, mas não poderia deixar de registar que aplaudo tua atitude em nome do teu pai…assim como faço em nome do meu, já levado por Deus.
    Não seria o Daniel que conheço se não tivesse expressado o que sentes, o que pensas sobre teu pai. Esta a grande demonstração do filhos que és, do homem criado pelo Dr. Vicente. Grande abraço.

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